O incêndio na boate Kiss em Santa Maria vitimou até agora 237 jovens e cerca de 75 continuam internados nos hospitais da cidade e noutras partes do Rio Grande do Sul.  Por meio de convite da ONG Novo Jeito, dirigida por também um graduado do Haggai, Fábio Henrique Alves da Silva (Florianópolis, 2001), de Recife, Gerson Garros (Cingapura, 2001) se dirigiu à cidade de Santa Maria com um representante desta ONG. Passou o fim de semana prestando apoio espiritual aos pacientes internados na CTI do Hospital de Caridade da cidade, consolou parentes e visitou duas famílias que perderam filhos no incêndio.

Gerson Garros (esq) e Fabrício Cunha (de SJ Campos, SP) no hospital
Gerson Garros (esq) e Fabrício Cunha (de SJ Campos, SP) no hospital
Gerson Garros é docente internacional do Haggai, bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Rio Grande do Sul, bacharel em jornalismo pela PUC-RS, mestre em teologia e doutor em ministério pelo Sioux Falls Seminary (South Dakota, EUA). Ele foi diretor acadêmico de Seminário por sete anos e pastor em igrejas batistas no RS. Foi missionário da Cruzada Estudantil para Cristo, atuando como diretor do projeto Filme JESUS na região Sul. Retornou recentemente dos EUA onde foi, por 2 anos, capelão residente em hospitais de Milwaukee, Wi. Gerson é membro da Igreja Batista de Mont'Serrat em Porto Alegre. Casado com Denise, eles têm dois filhos, Guilherme e Georgia.

Assim ele narra sua visita à cidade e participação na tragédia:

Quatro horas de viagem nos levaram de Porto Alegre ao coração do Rio Grande.  Fui para lá com o representante da ONG Novo Jeito, pastor Fabrício Cunha, de São José dos Campos, SP e meu irmão Tiago, da banda Tanlan. A ONG planejara uma ação com a participação de jovens evangélicos da cidade que iriam abraçar a catedral na missa de sétimo dia e dar uma rosa branca aos familiares das vítimas. Este gesto acabou sendo cancelado por falta de rosas na cidade e pela decisão de transferir o local da missa. Cerca de 10 mil pessoas participaram deste culto.

Gerson e Fabrício abençoando famílias no hospital
Gerson e Fabrício abençoando famílias no hospital
Assim que cheguei à cidade, a primeira conclusão foi de que os mais de 250 mil habitantes foram todos afetados pela tragédia. Nosso primeiro compromisso foi num jantar com jovens de uma igreja local.  Percebemos que todos tinham amigos ou conhecidos que morreram ou estavam hospitalizados em consequência do incêndio. "Era minha colega de inglês e de academia", me disse uma jovem. "Minha vizinha de porta era uma das vítimas," confessou um outro. À noite, na vigília promovida pela mocidade da 1ª Igreja Batista, o sentimento era um só: precisamos continuar oferecendo amor e não explicações ou condenação. A melhor forma era  a oração e o abraço.

No sábado pela manhã, um jornalista local nos atualizou das informações e nos levou ao palco da tragédia, a Boate Kiss. A chuva forte que caía, e levava ladeira abaixo muitas das flores e lembranças ali depositadas, era um símbolo das tantas lágrimas que foram derramadas por todo território gaúcho em função destas perdas. Santa Maria é sede da primeira universidade federal fora de uma capital no país, e seus alunos são oriundos de todos os cantos do estado. Possui o segundo maior contingente militar do país. Isto a torna uma cidade jovem. E jovens eram todos os que foram ceifados pela fumaça tóxica produzida pelo fogo no teto da danceteria. A metade eram alunos de cursos ligados a área agropecuária. Na calçada defronte a boate, apinhavam-se buques de flores, fotografias, velas, objetos pessoais dos jovens mortos, bilhetes, declarações de amor, além de cartazes e faixas clamando por justiça. Tudo reproduzindo o tom sombrio e doloroso que paira nos ares de Santa Maria.

Gerson (esq) em frente à boate Kiss, acompanhado de jornalista local
Gerson (esq) em frente à boate Kiss, acompanhado de jornalista local

Deus me permitiu ministrar a muitas pessoas, mas quero citar três momentos importantes para mim:

O primeiro, junto com outro pastor local, fui visitar uma das famílias da vítima. Crisley tinha 25 anos. Há poucos meses havia se separado do marido. "Quis apenas se alegrar um pouco, saindo com uma amiga”, contou a mãe. “Não voltou mais, deixando para trás sua filha Maria Teresa, adotada, com 14 anos e com Síndrome de Down”, completou. A dor de todos, mãe, padrasto, duas irmãs menores e da filha era muito grande. Para eles, esta foi a primeira visita pastoral que estavam recebendo. Seu amigo pastor que nos acompanhou se desculpou dizendo que estava envolvido com o funeral que precisou fazer de seu melhor amigo. Durante a visita pude oferecer apoio espiritual, facilitando a expressão da dor e ajudando a recuperar a esperança através da fé em Deus. Ao sairmos da casa, pr. Fabrício orou e sentimos que a graça do Senhor já estava atuando na família, que ainda tem muito a superar.

Segundo, visita aos enfermos do hospital: Após uma visita ao campus da UFSM, tingida de símbolos de luto, dor, carinho e protestos, fomos ao hospital. Deus nos abriu uma porta - literalmente - para entrarmos na CTI do Hospital de Caridade de Santa Maria onde estavam a maioria dos feridos que não foram transferidos à capital. Expliquei minha formação em capelania no exterior e a enfermeira permitiu que Fabrício e eu entrássemos e visitássemos cada um dos 15 jovens internados. Não era horário de visita e deixamos atrás de nós dezenas de pais e familiares que aguardavam a hora de rever seus queridos.  Tive toda liberdade para falar com os pacientes. Todos lutavam contra as queimaduras e intoxicação por cianureto - o mesmo que vitimou judeus nas câmaras de gás do holocausto.  A todos que estavam conscientes, perguntei se gostariam que orasse por eles. Todos, jovens universitários, invariavelmente, aceitaram, agradecidos. Sempre perguntei pelo que gostariam que orasse. Um destes foi direto: "Pelo meu irmão que morreu no incêndio. Que ele esteja em paz”. Pude então brevemente falar sobre o amor de Deus e a vida eterna e orar por seu pedido. Ao findar, junto com as lágrimas em seu rosto e a profunda gratidão por meu gesto, pude ver brotando nele um sentimento de paz e esperança em seu semblante que antes não havia.

Por fim, O corredor em frente da CTI se transformou numa imensa sala de espera e de esperança. Ali, cercados por voluntários que distribuíam alimentos e água, e por um psicólogo de plantão, estavam pais, familiares e amigos dos jovens internados. Entre estes, encontrei um pai e mãe que perderam um filho de 20 anos no incêndio e o outro filho, de 25, permanecia internado em estado grave. Meu colega e eu ouvimos atentamente enquanto narravam detalhes desta tragédia familiar. Perguntei aos pais como viam Deus nesta história toda. O pai, motorista de ambulância, embargou ao dizer que está aprendendo a ser grato pelos anos que havia convivido com aquele filho amado. A mãe não conseguiu esconder os questionamentos acerca de onde estava Deus naquela hora e o porquê desta perda. Com cuidado e simpatia, mostramos que não temos respostas, que questionar Deus é natural numa hora destas, mas asseguramos que Deus estava estendendo sua mão para confortar e guiar. Por mais de uma hora oferecemos a empatia e a esperança cristã a esta família em dor.

À noite, participei da Missa de Sétimo Dia, oferecendo afeto e solidariedade às famílias e amigos das vitimas. Enfim, passei a servir conforme a necessidade, sem impor uma agenda ao Espírito Santo e às famílias. Pude assim apresentar o amor de Cristo em gestos, no ouvir, no orar e, quando necessário e apropriado, com palavras de conforto e fé. As histórias de dor, desespero, despedida, saudades, heroísmos e irresponsabilidade se multiplicam ao conversar com cada morador de Santa Maria.

Oremos para que a dor desta cidade e deste estado seja refrescada com a graça restauradora de Cristo e que cada familiar e amigo em luto descubra a companhia de Deus e a salvação nesta longa jornada que tem pela frente. Oremos pelas igrejas do Rio Grande do Sul que tenham compaixão e sabedoria ao apoiar seus conterrâneos a encontrar a força em Cristo, nosso único mediador e príncipe da paz. Oremos também para que o jeitinho brasileiro, os pequenos e grandes subornos, a irresponsabilidade e a ganância dêem lugar a uma sociedade em que cada um seja íntegro e responsável no que lhe cabe para que vivamos em segurança na cidade.


Gerson Garros