Karl Heinz Kienitzé doutor em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica Federal de Zurique, Suíça, em 1990, e professor da Divisão de Engenharia Eletrônica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Fez o Seminário Internacional de Liderança Avançada em Cingapura em 2006. Desde 2007 colabora como docente voluntário do Instituto Haggai. Mantém uma página pessoal sobre Fé e Ciência, no endereço www.freewebs.com/kienitz.
A seguir, leia o texto publicado pela Ultimato:

Karl Heinz Kienitz
Desde meados do século 19, o cotidiano da sociedade ocidental tem se tornado cada vez mais complexo. Embora a especialização nas atividades profissionais e a explosão de inovações técnicas tenham facilitado o dia-a-dia, contribuindo para a redução de tempo e esforço dedicado a certas atividades, elas também têm levado, paradoxalmente, a uma aceleração do passo de vida das pessoas. A partir do século 20, essa complexidade tem crescido devido ao acesso quase-instantâneo a avalanches de informações, serviços e entretenimento. Hoje, um típico cidadão ocidental percebe-se em agitação constante, num cenário intrincado, cujas minúcias mal compreende.
Além das reações organísmicas ao aumento da complexidade -- tais como as doenças relacionadas ao “stress” -- verifica-se também uma nítida reação intelectual, que co-define a tônica da sociedade moderna e pós-moderna. Trata-se da adoção (explícita ou tácita) de uma atitude materialista. De forma geral, tal materialismo não se caracteriza tanto por uma posição intelectual, mas sim pela atitude de negar ou ignorar dimensões não-materiais no dia-a-dia. É uma atitude simplificadora, fundamentada na hipótese subjacente de que as dimensões ignoradas não seriam importantes.
A redução da dimensionalidade de representações é uma forma comum de simplificação, usada, por exemplo, numa aula de ciências em que explicamos um problema tridimensional de forma simplificada, usando figuras ou outras representações de duas dimensões. A terceira dimensão é omitida temporariamente para melhor enfatizar alguns aspectos fundamentais do problema ou de alguma solução. Porém, na consideração minuciosa, definitiva, do assunto, a dimensão adicional torna a ser considerada. No materialismo, no entanto, as dimensões não-materiais “somem”.
O paralelo com a aula de ciências indica que o materialismo não é uma alternativa promissora, pois dimensões não-materiais podem não ser insignificantes. Num de seus textos mais antigos, a Bíblia diz: “Os tolos pensam assim: ‘Para mim, Deus não tem importância.’” (Salmo 53.1, NTLH). No Novo Testamento, o amor ao dinheiro -- uma típica manifestação materialista -- é rotulado de “fonte de todos os tipos de males” e causa de sofrimentos. Jesus pessoalmente convida ao alijamento de opções materialistas: “Venham a mim todos vocês que estão cansados de carregar as suas pesadas cargas, eu lhes darei descanso”, e garante “deixo com vocês a minha paz; a minha paz lhes dou, não como o mundo costuma dar”. Ele também alerta para o efeito alienador do materialismo: “Outras pessoas são parecidas com as sementes que foram semeadas no meio dos espinhos. Elas ouvem a mensagem, mas as preocupações deste mundo e a ilusão das riquezas sufocam a mensagem, e essas pessoas não produzem frutos”.
Assim o materialismo, que acena com uma simplificação por meio de uma redução de dimensionalidade, acaba revelando sua verdadeira face: a de um tiro que sai pela culatra.
